A Logística e a crise brasileira. É crise ou oportunidade?

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artigo publicado na Revista MundoLogística edição de mai | jun de 2016.

Caros amigos e leitores, pelo título deste artigo, talvez vocês podem pensar que abordarei o tema clichê da crise do país, ou talvez fale como será o impacto da crise na Logística, mas podem apostar que estão enganados, pois apesar da gravidade da crise, neste artigo estaremos falando de uma movimentação do mercado que já vem desde 2010 juntamente com uma crise que já se arrasta por longas datas, bem antes desta crise política e financeira que assola o país.

Esta movimentação falada na sinopse deste artigo, que é relativamente nova e, portanto é conhecido por poucos, é o transporte de cargas através de transportadoras de valores; isso mesmo, transporte de cargas sendo feitos em carros fortes e caminhões blindados.

Fazendo uma rápida pesquisa na internet com o título “transporte de cargas valiosas”, você poderá observar várias matérias de empresas divulgando o lançamento de veículos blindados contra o roubo de cargas. Porém vale ressaltar que a oferta deste tipo de transporte é um privilégio para poucas empresas que podem ser contadas nos dedos devido ao fato de este tipo de atividade estar obrigada a ter que seguir uma legislação bem específica.

 

E como não poderia ser diferente, eis que surgem algumas curiosas perguntas…

O porquê e pra que as empresas especializadas em segurança e transporte de valores vem investindo em caminhões blindados?

Será que existe mercado?

Não seria um exagero para o transporte de cargas?

Parte da resposta está em outro artigo que escrevi com o título

Gerenciamento de Risco Nacional do Transporte de Cargas, o que é e como funciona?

Porém sendo bem pragmático,  apesar das recentes estatísticas do setor eletroeletrônico que é o principal consumidor deste tipo de solução, o qual aponta uma queda na produção industrial de eletrônicos de cerca de 30% em 2015 em relação a 2014, a resposta é que existe sim mercado, e não, não é um exagero!

Um dos motivos é que as poucas empresas de transporte de valores que existem no país e que por décadas ocuparam um nicho de mercado milionário, restrito e bem específico que é o transporte, custódia e gestão de numerários (dinheiro), vem perdendo força mês a mês devido à alavancagem das operações da empresa TecBan, que tem como acionistas os principais bancos, como o Banco do Brasil, Itaú-Unibanco, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Santander, HSBC e Citibank (lembrando que o HSBC recentemente foi comprado pelo Bradesco por US$ 5,2 bilhões), os quais se uniram e criaram sua própria empresa de transporte de valores com o objetivo de ganhar produtividade e otimizar seus custos, atividade esta a qual é caracterizada como um dos principais custos operacionais de um banco. Não sei se perceberam, mas de uns tempos pra cá é notória uma grande movimentação de serviços bancários somente através de caixas 24h, ou seja, onde havia vários ATMs – Automated Teller Machine ou simplesmente Caixa Eletrônico de tudo que é banco, agora só tem os caixas 24h; esta iniciativa faz parte de um forte plano de expansão da empresa TecBan, a qual vem se intensificando nos últimos anos. Vale ressaltar que este movimento não se restringe apenas aos bancos supracitados, pois em junho de 2014 o CADE já havia aprovado sem restrição a substituição de terminais de bancos por caixas 24h, extensivo a outras 26 instituições financeiras associadas a empresa.

Estes bancos representam uma fatia expressiva do faturamento das empresas de transporte de valores, pois justamente nasceram para atender este mercado, mas diante desta onda de movimentação dos bancos, as transportadoras de valores vêm também se reinventando e diversificando seu portfólio de produtos de forma mais intensiva.

Parte desta diversificação é justamente o serviço de transporte de cargas valiosas com caminhões blindados, o qual é caracterizado como o principal e mais lucrativo produto desta diversificação, que tem sua demanda puxada pelo crescente roubo de cargas no país que faz com que as empresas embarcadoras como a indústria eletroeletrônica, alguns setores do varejo e até mesmo prestadoras de serviços como operadores logísticos e agentes de cargas, dentre outros, reinventem e passem ser mais criativas para se proteger contra a fragilidade de nossa segurança pública a qual por sua vez é forçada a cumprir a lei através de um código penal criado em 1940, e que apesar de ter passado por algumas reformas, ainda é cheio de brechas e está longe de inibir o crime organizado. A questão é tão crítica que chegou ao Supremo Tribunal Federal com as investidas de nosso ex ministro e presidente da casa Joaquim Barbosa, que através de sua tentativa frustrada de iniciar uma faxina na corrupção praticamente em carreira solo, se viu obrigado a antecipar sua aposentadoria por força de ameaças e pressão de membros do setor publico.

A questão central é que tal fragilidade e alta criminalidade tornam o ambiente mais desafiador, forçando a iniciativa privada e gestores de Logística e Supply Chain a investirem cada vez mais em segurança e passarem a agregar em seu currículo a especialização em transporte seguro da carga, cujo objetivo é mitigar os riscos com sinistros a fim de evitar o aumento do seguro da carga com maiores taxas de averbação, e que está totalmente ligado aos custos logísticos. Para as empresas que financiam seu risco, o desafio é manter o índice de sinistralidade o mais próximo de zero com o menor custo possível.

Porém, equalizar esta conta não é nada fácil, sobretudo em momento de crise, com o país em recessão, dólar nas alturas e inflação bem acima da meta, o que torna ainda mais complicada a vida dos gestores que respondem pelo budget, desta forma, o negócio é fazer contas.

Contas, pois obviamente o custo do transporte de cargas com um veículo blindado e quatro homens armados está longe de ser compatível com o custo de uma transportadora convencional; porém é salutar dizer que o transporte de cargas através de uma empresa de transporte de valores com veículos blindados tem suas vantagens, como por exemplo, fazer com que você economize com a escolta, seguro, iscas, infra e sistema de rastreamento, além de diminuir a necessidade de um grande número de empresas parceiras, tornando sua operação mais segura, dentre outras vantagens que por força da legislação,   as empresas de transporte de valores ficam obrigadas a oferecer ao mercado, onde o padrão envolve veículos dotados de:

  • Monitoramento através de sistema de posicionamento que permita a localização e o controle do trajeto do veículo durante o transporte;
  • Em carretas, dispositivo de desatrelamento remoto do engate do semirreboque (quinta roda), conectado ao cavalo, de modo que não se permita o seu desatrelamento por comando manual direto ou fora da área de cobertura monitorada;
  • Botão de pânico;
  • Fechadura randômica (cuja abertura é feita mediante um código que precisa ser transmitido pela central no momento da abertura);
  • Sensores de portas e sirenes;
  • Opção de reforçar a estrutura dos baús das carretas, para dificultar o arrombamento de sua estrutura;
  • Dispositivo de abertura das portas do semirreboque dotado de fechadura randômica, por acionamento remoto;
  • A obrigatoriedade de no mínimo quatro vigilantes armados, incluindo o condutor do veículo.
  • Sistema de comunicação que permita a comunicação entre os vigilantes, e dos vigilantes com a base de apoio quando em deslocamento externo do veículo;
  • Para-choques que não contenham dispositivos externos que facilitem o atrelamento (engate);

Ao contratar qualquer empresa de transporte de valores, todos estes itens são de série, e portanto não são considerados como diferenciais, pois todas são obrigadas a cumprir por padrão tais quesitos; o diferencial é que ao contrário das transportadoras comuns, as empresas de transporte de valores passam por fiscalização regulares da Polícia Federal, e por sua vez, são obrigadas a manter todos os itens supracitados em perfeitas condições de funcionamento, para que os veículos sejam aprovados na vistoria.

A desvantagem é que apesar desta atividade estar regulamentada pela Portaria 781, de 18/01/2010, da Polícia Federal, não se trata de um transporte de cargas gerais, ficando esta restrita para o transporte de cargas valiosa tais como:

  • Pedras preciosas;
  • Joias;
  • Eletroeletrônicos;
  • Obras de arte;
  • Medicamentos controlados;
  • Equipamentos de Telecom e etc…

 

Por outro lado, a portaria não especifica o que é uma carga valiosa, ficando este entendimento a cargo de cada empresa operadora deste tipo de transporte.

Outra alternativa para mitigar os riscos, é a utilização do transporte ferroviário, que vem ganhando força, assim como o modal rodoviário com veículos blindados,  com um crescimento acima de 30% em 2015 ante 2014. A vantagem do modal ferroviário é que ele não beneficia somente embarcadores de cargas valiosas, pois  através dos trilhos é possível transportar cargas gerais, além de o custo frete ser menor do que a de uma empresa de transporte de valores. Outras vantagens de transporte de cargas do modal ferroviários, é que em se tratando de segurança, geralmente os contêineres são estrategicamente posicionados porta contra porta, tornando praticamente impossível o acesso a carga, além dos trens só pararem nos terminais ou estações para troca de maquinistas, e verdade seja dita, é muito mais difícil parar um trem em movimento do que um caminhão, não concorda?

Uma coisa é certa, não existe uma solução 100% segura, mas todas têm suas vantagens e vulnerabilidades, cabendo a cada embarcador avaliar bem sua operação, buscar as alternativas, avaliar os riscos e fazer contas, muitas contas, pois com base no último estudo feito pela Freightwatch International, Mexico, Brazil e South Africa são os que mais sofrem com roubo de cargas no planeta, razão pela qual estão classificados com nível de risco severo, o que tem levado a um crescimento continuado com investimento em segurança ostensiva e preventiva de mais de 20% ao ano.

Mas nem tudo está perdido, a boa notícia é que recentemente foi aprovada a utilização de arma de grosso calibre contra o roubo de cargas, inclusa na Política Nacional de Repressão ao Furto e Roubo de Veículos e Cargas, instituída pelo Decreto 8.614, publicado em 23/12/15, regulamentando a Lei Complementar nº 121, de 9 de fevereiro de 2006, cujo objetivo é disciplinar a implantação do Sistema Nacional de Prevenção, Fiscalização e Repressão ao Furto e Roubo de Veículos e Cargas, estabelecendo um divisor de águas para o transporte de cargas no país pelo fato de doravante possibilitar que os setores público e privado estejam unidos contra o crime organizado. Resta saber se os protagonistas responsáveis pela iniciativa tornarão esta oportunidade presente, relevante, marcante e benéfica aos embarcadores, ou como diria no popular, se de fato vão “fazer acontecer”. Outra arma potente é o projeto de lei n.º 8137/2014, hoje em tramitação no Senado, que promove alteração do Código Penal para aumentar a pena de reclusão dos delitos de receptação e receptação qualificada, que na forma simples passará a ser de 2 (dois) a 8 (oito) anos e, se for o caso de receptação qualificada, terá a pena de 3 (três) a 10 (dez) anos de reclusão, além de multa, o que dificultará a obtenção da fiança pelo aumento dos limites das penas, tornando o comércio de produtos roubados menos atrativo e mais arriscado.

De todas as questões e alternativas apresentadas neste artigo, participar deste mundo de fato é algo fascinante; porém acredito que o mercado ainda é carente de soluções que poderiam fazer diferença, como a criação do único Centro de Distribuição de cargas valiosas do planeta e a criação de uma Gerenciadora de Risco por uma empresa de transporte de valores ou alguma multinacional de segurança que tenha como destaque e premissa básica uma área de segurança bem marcante. Neste caso, seria possível criar um framework como método padrão de gestão para o setor, além de tornar a solução G.R. um produto estratégico e de alto valor agregado, bem diferente de boa parte da solução oferecida pelo mercado atualmente, que é caracterizada como commodities que serve apenas para cumprir regras previstas em PGR – Plano de Gerenciamento de Risco, contendo regras básicas aprovadas pelas seguradoras, as quais devem ser seguidas para que o embarcador obtenha a cobertura securitária em caso de sinistro.

Sem dúvidas, as soluções apresentadas nestes artigos são uma excelente opção para embarcadores de cargas específicas reduzirem seus custos logísticos com segurança.

Finalizo com a mensagem de que enquanto para uns a crise é o empurrão para o penhasco, para outros a crise é uma oportunidade para se chegar ao topo, e na “Logística” a “crise brasileira” sem dúvidas é uma oportunidade em todos os sentidos, seja para segmentos específicos,  ou seja como diferencial competitivo nas empresas. Portanto em 2016 não aceite a crise, vislumbre, crie, se reinvente e faça a diferença, e quando alguém lhe falar alguma sigla ou palavra de ordem, remeta seu pensamento a:

F.F.F., Foco, Força e Fé.

Obrigado e até a próxima,

Flavio Duarte | Administrador, especialista em Logística, Supply Chain e Gerenciamento de Risco. | Celular: (11) 99156-7999 | e-mail:oflavioduarte@gmail.com | Skype: flavioduarte03 | Twitter: @oflavioduarte |LinkedIn: https://br.linkedin.com/in/flavioduarte

 

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